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17/01/2017

Agroecologia: da interdisciplinaridade à transdisciplinaridade

A interdisciplinaridade é uma tentativa de romper com a compartimentalização ou fragmentação das ciências na modernidade. A ciência moderna, com sua rigidez científica em busca da objetividade, funciona como um espelho – que procura captar o seu objeto de análise tal como é, sem influência afetiva. Mas esse espelho, muitas vezes, é fragmentado. E quando a interdisciplinaridade tenta juntar e colar seus cacos, as arestas epistemológicas e paradigmáticas não proporcionam uma visão holística da realidade em questão.

Os paradigmas da ciência moderna desmontaram o saber que até então estava sob a tutela da mãe filosofia. A filosofia, como boa mãe de família, jamais aceitou a divisão dos saberes em compartimentos; ela sempre manteve uma visão total e holística do saber sob sua cosmovisão. Um exemplo disso foi a ética da filosofia clássica dos gregos, que era, como se costuma dizer, derivada da própria ordem do cosmo. A filosofia, de fato, abrigava todas as ciências sob um mesmo prisma paradigmático. 

Consequentemente, os conhecimentos científicos que se produziram sob a tutela da filosofia prezavam pela visão cósmica do todo sistêmico. Foi a partir da divisão do saber sugerida pelo método cartesiano da dúvida metódica, seguido pelo pensamento científico newtoniano, que se iniciou a divisão das ciências. Essa divisão se materializou primeiramente na física. E, em seguida, também na biologia, na química, na matemática. Por fim tal compartimentalização se estendeu também à história e a todas as demais disciplinas – centradas em seus diversos objetos de estudo e por meio de suas metodologias próprias.

Rompeu-se assim o espelho. E a experiência mostra que, ao remedar os cacos, esse espelho continua por refletir as imagens de forma quebrada, fragmentada. Mas precisamos de um espelho que esteja intacto – e tal espelho poderia ser a própria filosofia. O problema é que ela foi, a partir de certo momento, relegada a um segundo plano, cabendo-lhe tão somente a epistemologia e a ética. É aliás a partir destes dois enfoques que a filosofia exerce, até hoje, sua função crítica ao racionalismo instrumental científico.

A interdisciplinaridade é um passo interessante em direção a recuperação da visão e compreensão holística da ciência. No entanto, ela não é suficiente – pois não supera a visão fragmentada. O motivo é simples: toda ciência, com seu objeto disciplinar específico, continua presa a seus paradigmas e à epistemologia que a gerou. Se não for alterada essa concepção epistemológica, nem rompidos os paradigmas dominantes, não se chegará nem a uma visão holística e nem, muito menos, a uma visão sistêmica.

É por isso que o filósofo francês Edgar Morin questiona o discurso da interdisciplinaridade. Ele afirma que “a interdisciplinaridade controla as disciplinas tanto quando a ONU controla as nações”. Morin sugere, em contrapartida, o que chama de transdisciplinaridade. Mas, afinal, a que exatamente se refere esse conceito?

Para entender, é necessário um breve resgate histórico. A filosofia clássica sempre manteve uma visão do todo a partir de sua concepção do cosmo e do caos. Era dentro desse pensamento que se movia a filosofia racional científica dos antigos gregos. Cada objeto, assim como cada tema analisado pela razão, tinha seu trânsito garantido na visão do todo. Isso significa que, de fato, o saber já era transdisciplinar mesmo antes do nascimento da disciplinaridade – que mais tarde fora responsável pela fragmentação da ciência moderna.

Morin, neste sentido, propõe uma reforma do pensamento – que, baseada nos recursos da transdisciplinaridade, despreza tanto o pensamento analítico cartesiano como o sistemismo inerente aos adeptos da chamada teoria dos sistemas. O sistêmico deve levar o pensamento num ir e vir: das partes ao todo, e também do todo às partes.

Diante da concepção de Morin, em que o todo tem suas qualidades próprias e, também, encontra-se em cada parte que constitui a totalidade, a transdisciplinaridade implica distinguir e associar; e não desunir e reduzir. Ou seja, o saber deve ser enriquecido pela noção do sistema sem, no entanto, ser reduzido ao sistema. Na transdisciplinaridade, o particular e o disciplinar servem para alcançar um propósito maior: a visão da totalidade sem que se abra mão do todo e tampouco das partes que o compõem.

Há os que olham para floresta, mas não enxergam a árvore. Há os que olham a árvore e não enxergam a floresta.

Neste sentido, a transdisciplinaridade, antes de ser uma nova visão epistemológica, é uma maneira de ver a realidade a partir de uma ética sustentável. 

E qual seria a relação entre esses conceitos filosóficos e a prática da agroecologia? Na verdade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade são dois passos decisivos para os caminhos da produção em sistemas orgânicos ou agroecológicos. Essas visões, afinal, alteram nossa postura acerca de como devemos entender os processos da natureza. E, assim, alteram também nosso entendimento a respeito das lógicas distintas da economia, da sociedade e das temáticas ambientais.

Na transdisciplinaridade, por exemplo, os conceitos de bem e mal não são vistos de forma separada. Trata-se de um só conceito – mas articulado em dimensões diferentes. Numa lógica binária de exclusão, a título de ilustração, a formiga é do mal. E, por esse motivo, deve ser combatida e exterminada implacavelmente. Tal é a concepção dos modelos mentais adotados pela agricultura convencional.

Numa concepção transcendental, já nesse outro nível holístico de realidade, o bem e o mal não existem a partir de uma visão excludente (baseada na lógica dicotômica do terceiro excluído). Mas coexistem a partir de uma visão inclusiva. Não se trata de ‘isto ou aquilo’, mas sim de ‘isto e aquilo’.

No pensamento agroecológico, a planta e sua interação com o solo é tão necessária quanto a formiga – que exercerá um papel importante para recuperar e restabelecer os solos desequilibrados, calcificados e sem vida. A formiga promove interações microbiológicas que dão vida ao solo. Como dizer, então, que ela é um agente negativo e indesejado em um contexto agrícola?

Por essa razão, na agroecologia não se fala em combater a formiga. Mas sim em manejar sua existência e reconhecer sua função no ecossistema. E como é possível promover esse remanejamento sem envenenar as formigas e, com elas, a própria natureza? Devolvendo à natureza sua biodiversidade, evitando assim o desequilíbrio do mundo natural provocado pelas monoculturas desenvolvidas dentro de sistemas convencionais.

Essa transição requer uma nova visão, um novo paradigma e uma nova forma de conhecimento. Requer, portanto, uma nova epistemologia. Não se pode compreender a agroecologia sob o prisma paradigmático da sociedade de consumo, alimentada por uma visão econômica meramente expansionista. Nesse modelo, a economia cresce; mas, do ponto de vista social, cresce como o rabo do cavalo – isto é, para baixo. Tal sistema de pensamento, além de produzir exclusão social, intensifica os processos de degradação do meio ambiente.


Gernote Kirinus
Teólogo e filósofo, é pós-graduado em antropologia filosófica e sociologia política. Atualmente trabalha como pesquisador do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) na área da ética e epistemologia.


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