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07/03/2017

Filosofia e agricultura: reflexões sobre o tempo de Cronos e o tempo de Kairós

Ao adentrarmos o mundo da produção agrícola orgânica e o mundo da agroecologia, deparamo-nos com o binômio ‘produtor e agricultor’. E, nesse sentido, defrontamo-nos com um conflito a ser superado: é o conflito que se estabelece entre a demanda por uma produção quantitativa em prazos mais curtos do que os prazos oferecidos pela natureza; e a produção qualitativa adequada aos ciclos naturais.

A produção quantitativa transforma o homem do campo em um simples produtor – ou reprodutor – sob a batuta da tecnologia moderna. A produção qualitativa adequada aos ciclos naturais, por outro lado, remete ao respeito ao comportamento cultural do homem do campo. E faz dele um agricultor dotado de uma cultura agropastoril, um agricultor que desenvolve uma verdadeira cultura criativa no ato de produzir.

Uma curiosidade: esse dilema entre os conceitos de agricultor criativo e produtor reprodutivo é, por sinal, o mesmo dilema que enfrentamos também na educação entre professor e mestre. Explico: quando lecionava filosofia em Paranaguá (PR), numa faculdade privada, deparei-me com um conflito de interesses. A instituição estava interessada em se manter com as mensalidades pagas pelos alunos – que pareciam apenas interessados em um diploma para disputar o mercado de trabalho. Era exatamente no cruzamento desse jogo de interesses que se encontrava a figura do professor. Mas o professor, curiosamente, quando realizava um trabalho sério, acabava por atrapalhar tanto o interesse da instituição quanto o interesse dos alunos. É nesse contexto que emerge uma nova dicotomia: a do professor profissional em oposição ao mestre vocacional.

Naquela faculdade, o professor profissional se contentava com um salário que não inspirava muito contentamento. A função servia como um quebra-galho, um mero ‘bico’. Já o mestre vocacional, muito além do salário, alegrava-se com o progresso dos seus discípulos na aprendizagem e, especialmente, com a criatividade de cada um.

Esse quadro era tão comum e natural que, certa feita, um aluno me perguntou se eu só lecionava ou se eu também trabalhava! Queria saber o que eu fazia durante o dia, pois lecionava à noite. Talvez, para o aluno, o ato de estudar tanto era um ‘bico’ para melhorar seu currículo quanto para o professor lecionar era um ‘bico’ para aumentar seus proventos. E a sociedade se dava por satisfeita. Criava-se a falsa ilusão de que o nível cultural aumentava com o número de pessoas com nível universitário.

Mas por que, afinal, conto essa história? Porque a mesma ilusão, na verdade, ocorre também no contexto da produção de alimentos.

Costuma-se dizer (embora existam controvérsias) que a produção em grande escala torna o alimento mais barato e mais acessível. Já a o alimento orgânico ou agroecológico, por ser normalmente mais caro, acaba por ser menos consumido pelos que ganham pouco. A ilusão, nesse caso, é acreditar que o primeiro método é realmente mais barato – uma vez que o consumo de alimentos oriundos da agricultura convencional pode estar, em muitos casos, associado à ingestão direta ou indireta de insumos químicos altamente tóxicos para a saúde humana. O consumo de alimentos orgânicos, por outro lado, é não apenas saudável como também pode previnir doenças. Portanto, podemos cair em uma armadilha: pagamos barato pelo alimento convencional, mas pagaremos caro pelos medicamentos e custos de saúde associados aos males possivelmente associados ao consumo de agrotóxicos. Já no caso da agricultura agroecológica ou orgânica, tal raciocínio é simplesmente invertido.

Os elementos geradores dessas ilusões, porém, não são as dicotomias entre professor e mestre ou produtor e agricultor. Na verdade, a origem dessa percepção errônea está na consciência dos que se servem desses dois serviços. Andamos muito apressados; queremos tudo para agora. É o imediatismo que rege grande parte de nossas vidas. Ao mesmo tempo, somos ansiosos por tirar vantagem de tudo e de todos. Em outras palavras, vivemos sob pressão do deus Cronos – que, na mitologia grega, é o deus do tempo. Cronos costumava comer os seus filhos assim que nasciam: é o cronômetro engolindo os segundos, minutos, horas, dias, meses e anos durante séculos e milênios.

Quem nos salva desse deus devorador de seus próprios filhos é o deus Kairós – que, na mesma tradição mitológica, é o deus da graça que vem de tempos em tempos trazendo a alegria da primavera, o calor do verão, o frio intenso do inverno antecedido pelos frutos do outono.

Eis a lição: não é a pressa que nos salva de Cronos. Mas a paciência. O tempo de Kairós não se mede em minutos ou horas. O tempo da graça pode se tornar longo quando estamos sob a desgraça de uma dor de dente; mas pode ser veloz como a luz quando estamos em estado de graça, lendo um bom romance, assistindo a um bom filme ou desenvolvendo cultura – nem percebemos que o tempo avançou!

O agricultor se orienta pelo tempo Kairós. Já o produtor, sob a pressão de produzir mais e mais rápido, orienta-se pelo tempo de Cronos, que é o implacável cronômetro devorador do tempo, da esperança, da alegria e até mesmo da vida. Eis a diferença fundamental entre o produtor e o agricultor, entre o professor e o mestre. Uns obedecem ao deus Cronos, e outros se orientam pelo deus Kairós.


Gernote Kirinus
Teólogo e filósofo, é pós-graduado em antropologia filosófica e sociologia política. Atualmente trabalha como pesquisador do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) na área da ética e epistemologia.


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