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09/05/2017

Agricultura familiar e Agroecologia: não o problema, mas a solução

O pequeno agricultor orgânico ou agroecológico não é o problema. Ele é a solução. Tempos houve em que o homem do campo comparecia ao armazém da vila só para comprar fósforo, querosene, sal, fumo de corda, pinga e tecido para costurar sua própria roupa. O agricultor também deixava com o comerciante parte do dinheiro da venda de seus produtos em forma de empréstimo; o comerciante usava este dinheiro como capital de giro a juros bem mais suaves do que pagaria para o banco. E, digamos de passagem, hoje tanto o comerciante quanto o agricultor estão enterrados em dívidas com os bancos – enquanto a fome impera nas grandes plantações.

A produção era diversificada. Os agricultores produziam pequenos animais para o abate e animais de porte maior para o trabalho e fornecimento de leite. Tinham por tradição manter um pomar, uma horta e uma reserva florestal perto do riacho ou nascente para que o gado tivesse sombra e água fresca.

Quando se abatia um porco, por exemplo, só se perdia o grito e o pelo do animal. Chegava-se ao capricho de desossar e colocar os ossos junto ao fogo, dentro do fogão à lenha – esse material, depois de queimado, virava farinha de osso para alimentar os animais. As cascas dos ovos de galinha também eram torradas no forno e transformadas em cálcio para o trato da terra e dos animais. Já os resíduos não aproveitáveis para consumo humano ou animal viravam alimento para as minhocas, que renovavam o solo.

A propriedade produzia cana de açúcar, milho, feijão, batatinha, arroz, mandioca, trigo e outras variedades. O desperdício chegava a quase zero – e isso permitia uma maximização da economia agrícola.

Mas para que tal diversidade fosse possível apenas com a mão de obra familiar, sem mecanização, a extensão de área cultivada não podia ser muito grande. O número de filhos sempre era expressivo, pois eles tornavam-se mão de obra quando crescidos. Os mais velhos saíam da família para constituir nova família; e logo vinham os mais jovens para substituir a mão de obra carente.

Infelizmente, as políticas públicas foram totalmente orientadas para as necessidades urbanas, em detrimento das demandas do campo. O mundo rural, assim, foi abandonado à sua própria sorte. Diante deste absurdo político da administração pública das últimas décadas, o agricultor foi desamparado – e iludido a viver na cidade. Pensou nos seus quatro ou cinco filhos ganhando, junto com a mulher e ele próprio, um salário mínimo cada um. E, somando tudo, pensou que ficaria rico em pouco tempo . Ou que, ao menos, seus rendimentos seriam maiores do que  eram no campo.

Ao migrar para a cidade em busca do paraíso urbano, porém, muitos agricultores viram suas famílias destroçadas pelas drogas e choraram a dura sorte com saudade do tempo quando eram felizes e não sabiam. Outros procuram abrigar suas esperanças de retorno, aguardando pela encantada reforma agrária debaixo da lona preta dos acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Mas, nessa breve história, três perguntas precisam ser feitas: (1) Será que a volta a este sistema de agricultura familiar é viável? (2) Esse retorno não seria um retrocesso, tendo em vista o crescimento populacional que exige cada vez maior produtividade com tecnologia moderna e avançada? (3) E será que querer voltar à agricultura familiar é um saudosismo romântico? A resposta para todas elas é *sim* e *não*. Analisemos cada uma dessas questões:

1. Será que a volta a este sistema de agricultura familiar é viável?

Sim, a viabilidade da agricultura familiar passa pela produção com orientação agroecológica, que por sua vez demandará uma reforma agrária para disponibilizar terras aos que querem voltar para a agricultura de base familiar.

Não, se continuarmos atrasando o processo da reforma agrária e não investirmos na vocação orgânica ou agroecológica do que ainda resta de agricultura familiar. E, é claro, não avançaremos se não adotarmos políticas orientadas a estancar a migração do campo para cidade.

2. Esse retorno não seria um retrocesso, tendo em vista o crescimento populacional que exige cada vez maior produtividade com tecnologia moderna e avançada?

Sim, é evidente que o crescimento demográfico exige cada vez maior produção de alimentos. É exatamente por isso que não se explica a expulsão do homem do campo para dar lugar à expansão da grande lavoura modernizada – uma vez que é a agricultura familiar que abastece a cidade. Que bom seria se houvesse uma produção programada a partir de um planejamento social considerando o crescimento demográfico; e não apenas a expansão do capital pelas vias do agronegócio.
Não, porque quem produz e abastece as cidades não é o agronegócio, fruto da expansão do capitalismo ao campo, da revolução verde, da modernização da agricultura baseada na vocação agroexportadora. É nesse contexto que se aplicam as técnicas agrícolas modernas – com o intuito de produzir cada vez mais em cada vez menos tempo, degradando solo e natureza e sem abastecer a população urbana nacional com alimentos de boa qualidade nutricional e ambiental.

Quem realmente atende à demanda do crescimento demográfico é a agricultura familiar. Afinal, é ela que produz alimentos para consumo interno e que está cada vez mais pressionada a deixar o espaço para a grande lavoura agroexportadora.

Outro absurdo é pensar que o crescimento demográfico é responsável pela concentração urbana. A maior responsabilidade da concentração urbana recai sobre a migração do campo para a cidade. Se toda esta gente – que muitas vezes foi literalmente expulsa do campo ou migrou alimentando a ilusão de que ganharia mais diante do parco rendimento da sua lavoura – tivesse ficado no campo, não teríamos a explosão demográfica urbana. Teríamos um crescimento populacional equilibrado no campo e na cidade. Tradicionalmente, o camponês saía em busca de terras para seus filhos em novas fronteiras agrícolas, para que não precisasse se aventurar na cidade em busca de emprego. E, pior, esta gente que foi desestimulada em sua atividade agrícola hoje faz falta no campo – e passou a consumir em vez de produzir alimentos.

3. E será que querer voltar à agricultura familiar é um saudosismo romântico?

Sim, quem não sente saudade dos bons tempos? O romantismo conta com o sentimento humano e tanto provoca a saudade como curte a saudade daquilo que deu certo e que fez bem.

Não, não é tanto o saudosismo romântico dos tempos passados que nos move a querer recuperar o tempo perdido, recuperar o que foi destruído. Sabemos que nunca será igual. Mas sabemos também que se não voltarmos à agricultura familiar e, agora mais do que nunca, sob a orientação agroecológica, não conseguiremos evitar o colapso do inchaço urbano cada vez menos sustentável.

É improdutivo pensar em sustentabilidade urbana sem uma reforma no campo. Afinal, o sustento da cidade se encontra no campo. Se enfraquecemos ou eliminamos a pequena agricultura familiar orgânica, a cidade morre de fome ou envenenada pelo agrotóxico da produção em grande escala. Isto é tão simples e lógico – que até uma mosca sabe distinguir a margarina da manteiga natural fazendo seu pouso no alimento natural e saudável.

Já quanto ao crescimento demográfico, até os ratos em sua tradição de vida nos dão de dez a zero. Normalmente, o chefe ou cacique da população dos ratos possui de dez a doze fêmeas e ele só emprenha todas elas se souber que existe alimento suficiente para toda população que será gerada. Se perceber que existe pouco alimento disponível, ele limita-se a reproduzir apenas com duas de suas fêmeas.

E o que dizer de nós, que não nos orientamos por um planejamento familiar consistente e tampouco por um planejamento agrícola racional? Nosso planejamento se aplica para da expansão do capital, mas não para a sustentação da família humana.


Gernote Kirinus
Teólogo e filósofo, é pós-graduado em antropologia filosófica e sociologia política. Atualmente trabalha como pesquisador do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) na área da ética e epistemologia.


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