Vídeos

Artigos

29/09/2017

Paraná concentra maior número de agricultores orgânicos no país: entenda por quê

Consumidores são cada vez mais exigentes: a demanda por alimentos orgânicos não para de crescer. Dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) mostram que o crescimento do mercado de orgânicos em nosso país, no ano de 2015, foi de 25%. E taxas superiores a 30% são esperadas para os próximos anos – fazendo da comercialização de alimentos orgânicos um segmento econômico deveras promissor.

O Paraná é destaque nesse setor. Somos, segundo dados do Ministério da Agricultura e Abastecimento (MAPA), o estado com o maior número de propriedades rurais orgânicas em todo o país: já são mais de duas mil unidades certificadas. “Mas o universo da produção orgânica é muito maior: temos mais de 10 mil produtores, em todo o estado, que já praticam a agricultura de base ecológica e estão em fase de transição ou certificação”, contextualiza o engenheiro agrônomo João Carlos Zandoná, diretor-presidente do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA).

Aliás, a própria existência do CPRA é um dos elementos que faz do Paraná um diferencial no setor. Trata-se do único estado que conta com um órgão público especialmente dedicado à agroecologia – o CPRA é uma autarquia vinculada à Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SEAB). "Nossa missão é apoiar ações de pesquisa e capacitação dentro dos preceitos de uma produção agropecuária alinhada às exigências do século 21”, afirma Zandoná.

Livro de visitas

Na sede da instituição, localizada no município de Pinhais (PR), acontecem cursos, oficinas, eventos, vivências e encontros que reúnem agricultores, técnicos, pesquisadores e estudantes não só do estado, mas de todo o país e de diversas partes do mundo.

Em julho, por exemplo, o CPRA recebeu uma visita da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA). O grupo – em sua maioria gestores públicos e empresários japoneses – estava interessado em conhecer o centro e estudar possíveis parcerias para o desenvolvimento de tecnologias de produção orgânica. Em agosto, também visitou as instalações do CPRA uma comitiva de agricultores e membros do governo paraguaio. Eles buscavam conhecer mais sobre as políticas públicas de fomento à agroecologia no Paraná.

Ao longo dos 12 anos de existência do CPRA, mais de 30 mil pessoas já participaram de visitas e atividades oferecidas pelo centro.

Agenda do dia

Cinco temas são de especial importância para o CPRA: recursos naturais; engenharia alternativa; produção vegetal integrada; produção e bem-estar animal; e socioeconomia. E, dentro dessas temáticas, alguns dos assuntos que mais chamam a atenção do público externo são os cursos de agricultura orgânica; as tecnologias que o CPRA desenvolve com bioconstruções em bambu; e os trabalhos envolvendo abelhas nativas sem ferrão, também conhecidas como abelhas indígenas.

Meliponicultura: resgatando a biodiversidade

Além de vitais para as dinâmicas de polinização de inúmeras espécies vegetais das quais dependemos para nossa alimentação, as abelhas nativas produzem um mel de sabor intenso e exótico, com aplicações culinárias e medicinais muito valiosas.

No Paraná, a criação de abelhas nativas – atividade conhecida como meliponicultura – está se tornando uma importante referência para outros estados. “Tratamos o tema da meliponicultura com ênfase proporcional a sua importância no contexto da agroecologia: se a biodiversidade é condição básica para equilíbrio dos ecossistemas, a preservação, e, em alguns casos, o resgate de espécies nativas, são ações estimuladas com os eventos que realizamos ou apoiamos”, afirma o técnico agrícola Valcir Wilhelm, do CPRA.

Leite orgânico: tendência mundial

Produção de leite orgânico é outro assunto que tem atraído muitos olhares para o CPRA – o tema rendeu uma reportagem no jornal Folha de São Paulo, recentemente, e diversas outras em veículos de imprensa pelo estado afora.



“Produzimos cerca de 300 litros de leite orgânico todos os dias”, conta o médico veterinário Evandro Richter, referindo-se à produção obtida no CPRA. Trata-se de uma produção em escala experimental com o objetivo de capacitar técnicos da área e, além disso, gerar e validar novas tecnologias que possam ser repassadas a agricultores familiares interessados na atividade

Segundo Richter, a demanda por leite orgânico cresce a cada ano. E o Brasil ainda tem muito trabalho pela frente se um dia quiser atingir os patamares de produtividade de países mais desenvolvidos no segmento. “Na Dinamarca, por exemplo, quase metade da produção de leite já é orgânica.”

Por uma relação justa entre campo e cidade

Mas não basta apenas produzir. É necessário, também, democratizar o acesso aos alimentos orgânicos. Por isso, a área de socioeconomia do CPRA tem se destacado com o projeto Cestas Solidárias. Trata-se de uma iniciativa que aproxima o agricultor do consumidor – por meio de uma parceria que preconiza a entrega semanal, a preços bastante acessíveis, de cestas com alimentos agroecológicos fresquinhos, colhidos no dia! A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI) é uma importante parceira: um grupo de consumidores, formado dentro da instituição, já aderiu ao projeto e os resultados têm sido animadores. O sucesso da ideia fez com que a Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SEAB) seguisse os mesmos passos.

“Hoje, na Região Metropolitana de Curitiba e nos Campos Gerais, já são mais de 450 cestas orgânicas comercializadas semanalmente”, conta o agrônomo Manuel Delafoulhouze, do CPRA. “Essa prática já acontece em 12 municípios e tem movimentado, anualmente, cerca de R$ 500 mil”, contabiliza Delafoulhouze.
O potencial do Cestas Solidárias é grande: escolas, escritórios, academias, clubes, órgãos públicos e mesmo vizinhos… Qualquer coletivo organizado pode acionar o CPRA para promover a criação de um novo grupo de consumidores de alimentos orgânicos. Todos saem ganhando com a entrega, feita pelos próprios agricultores, de alimentos da época, muito saborosos e cultivados sem agrotóxicos ou fertilizantes químicos prejudiciais ao ecossistema.

Agroecologia: água de qualidade

Falando em ecossistema, o CPRA está localizado em uma região muito especial: é a Área de Proteção Ambiental do Iraí, onde, às margens de nossa Fazenda Agroecológica, está localizada a represa do Iraí. É um dos principais reservatórios usados pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) para abastecimento hídrico em Curitiba e Região Metropolitana. A prática da agricultura convencional em áreas ambientalmente sensíveis, como essa, é uma ameaça à qualidade da água que nos abastece. Afinal, substâncias nocivas presentes em agrotóxicos e demais insumos químicos sintéticos acabam fatalmente nos cursos d’água. Tais substâncias, portanto, além de encarecer os custos de tratamento, comprometem a qualidade de nosso abastecimento e colocam sérios riscos à saúde de gerações atuais e futuras.

É por isso que a parceria entre o CPRA e a Sanepar é tão importante. As duas instituições já trabalham, também, na consolidação de estratégias para orientar agricultores de São José dos Pinhais (PR), onde, na região do Miringuava, está em fase de construção uma nova barragem. Se a agricultura continuar a ser praticada lá, em seus moldes convencionais, o abastecimento hídrico da região poderá ser muito prejudicado. Assim, a agroecologia acena como promissora estratégia para a preservação dos recursos hídricos; a manutenção da biodiversidade; a produção de alimentos saudáveis; a qualidade de vida dos trabalhadores rurais; e a permanência deles no campo.

Região Metropolitana de Curitiba: um estudo de caso

O estado do Paraná é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no Brasil. O risco para os consumidores é iminente – a própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem demonstrado, ao longo da última década, crescente preocupação com o tema. Danos ambientais também não devem ser negligenciados. Afinal, agrotóxicos podem contaminar o solo, a água e, nalguns casos, mesmo o ar.

É por isso que a SEAB – em parceria com o Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER), o Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), as Centrais de Abastecimento do Paraná (CEASA-PR), a Secretaria Municipal de Abastecimento (SMAB), de Curitiba, e diversos outros departamentos ou órgãos governamentais – definiu como uma de suas metas estratégicas o projeto Hortaliças Saudáveis. Trata-se de uma iniciativa que deve promover a redução do uso de agrotóxicos no estado e, em particular, na Região Metropolitana de Curitiba. “Nos arredores da capital paranaense, praticamente toda a atividade agrícola ocorre em áreas de mananciais; nesse contexto, o projeto Hortaliças Saudáveis ganha importância ainda maior”, comenta Zandoná. A ideia é que, aos poucos, mais e mais produtores conheçam as vantagens da agroecologia e da produção orgânica.

Dentro da proposta do Hortaliças Saudáveis, tem despertado grande interesse por parte de agricultores, gestores e pesquisadores um trabalho que o CPRA realiza em parceria com o EMATER. É o projeto Produção em Base Agroecológica na Região Metropolitana de Curitiba – também apoiado pela SETI, com recursos do Fundo Paraná.

O foco desse projeto é aplicação da metodologia Redes de Referências para a Agricultura Familiar – uma metodologia desenvolvida pelo IAPAR inspirada em trabalhos anteriormente realizados na França pelo Institut de l’Elevage. Ela procura integrar agricultores, pesquisadores e técnicos da assistência técnica e extensão rural na busca por melhorias para os sistemas de produção na agricultura familiar.

Nessa interação, o projeto tem o objetivo de analisar experiências bem sucedidas e, a partir delas, estudar, sistematizar e replicar boas práticas no setor. A ideia é simples: gerar referências técnicas e econômicas que possam ser difundidas para um número cada vez maior de agricultores familiares paranaenses no ramo da agroecologia.

Para isso, o CPRA e o EMATER acompanham uma rede de 22 propriedades rurais, nos diversos municípios que compõem a Região Metropolitana de Curitiba. Elas são estudadas de perto por uma equipe de técnicos e bolsistas. Ao analisar cada uma dessas propriedades, será possível entender as principais oportunidades e desafios que agricultores orgânicos enfrentam em seu dia a dia.

Proposição de melhorias para as propriedades rurais; novas demandas de pesquisa acadêmica; e novas sugestões de políticas públicas para o setor, portanto, serão os resultados práticos desse importante projeto. O trabalho, iniciado em novembro de 2016, deverá ser concluído até 2019.

Paraná Agroecológico

Outra iniciativa que coloca nosso estado na vanguarda da agroecologia é o programa Paraná Agroecológico. Dele participam, além do CPRA, diversos órgãos e instituições públicas e privadas do estado e do país.

O objetivo do Paraná Agroecológico é fomentar ações que possam resultar em uma produção agropecuária mais eficiente e mais ecológica. Uma importante atividade mantida pelo programa é a organização de um evento bianual – que já é referência na região Sul do Brasil por congregar produtores, consumidores, acadêmicos e gestores em torno do desenvolvimento da agroecologia paranaense.

Os desafios da certificação orgânica

Vem cumprindo importante papel na economia de nosso estado o Programa Paranaense de Certificação de Produtos Orgânicos (PPCPO), inaugurado em 2009. “Surgiu como uma demanda dos próprios agricultores, que nos procuravam porque sentiam falta de ações que os auxiliassem na transição da agricultura convencional para sistemas orgânicos”, conta o administrador do programa, Luiz César Kawano, da SETI. “À época, esse tipo de assistência não existia.” A principal meta do PPCPO é, portanto, identificar e auxiliar produtores que desejam passar pelo processo de conversão orgânica – de modo que eles sejam treinados e capacitados a produzir alimentos orgânicos de acordo com os requisitos estabelecidos pelo MAPA.

Mário Nakui e sua esposa, Elisa Nakui, são parceiros do PPCPO. Eles produzem alimentos orgânicos desde a década de 1990, quando ainda moravam no Japão. "Nem sempre é fácil conseguir adequar uma propriedade rural à conformidade orgânica, mas o resultado vale a pena”, diz o senhor Nakui. "Os técnicos do PPCPO nos auxiliam muito nessa tarefa; eu e minha esposa estamos satisfeitos com o resultado".

Hoje, a propriedade do casal em Piraquara (PR) é referência para outros agricultores. Na semana passada, a propósito, um grupo de produtores de São José dos Pinhais (PR) fez uma visita ao casal – com o objetivo de conhecer o sistema orgânico. A família Nakui cultiva mais de 60 espécies agrícolas! Os carros-chefes da propriedade são rúcula, alface, agrião, tomate e morango.

"Apesar da forte presença do agronegócio no Paraná, temos agricultores familiares em todas as regiões do estado, e isso significa terreno fértil para a expansão da agroecologia", comenta a coordenadora da área de mercados do EMATER, Mary Stela Bishof. Afinal, é nas pequenas propriedades que as práticas agroecológicas costumam encontrar grande potencial. Bishof acredita que devemos valorizar os circuitos curtos de comercialização: feiras orgânicas, entregas de sacolas pré-encomendadas, pequenos varejistas e iniciativas desse gênero.

Horizonte

Mesmo o Paraná sendo destaque no segmento, ainda há muito a ser feito em prol da agroecologia no estado. A democratização do consumo de orgânicos é, de fato, um dos pontos que preocupam especialistas. “A disponibilidade de alimentos orgânicos em grandes cidades é cada vez maior; por outro lado, as alternativas de mercado fora dessas regiões metropolitanas são escassas”, comenta Valter Bianchini, Oficial Nacional da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e responsável pelo Escritório Descentralizado de Gestão de Projetos para a Região Sul.

Outro desafio, segundo Bianchini, é a falta de investimento na contratação de mão de obra especializada em assistência técnica e extensão rural. “Há, no estado e no país, uma preocupante carência de recursos para essa finalidade.” Igualmente preocupante é a questão do crédito. “Há pouca sensibilidade dos bancos, que muitas vezes criam dificuldades na liberação de financiamento para agricultores interessados em desenvolver práticas agroecológicas”, pondera o oficial da FAO.

Para avançar, portanto, o Paraná precisa de políticas públicas capazes de endereçar esses desafios de maneira eficaz. Por isso, uma relação harmoniosa entre órgãos públicos e organizações não governamentais é de suma importância. “Aliás, esse bom nível de interação institucional, que acontece desde a década de 1980, tem sido um dos elementos que vem fazendo o Paraná se destacar no ramo da agroecologia”, afirma Bianchini. Ele aposta na continuidade dessa sinergia. E, além disso, aposta no fortalecimento da agricultura familiar pela via do cooperativismo.

A agroecologia no cenário global

Os preceitos da agroecologia incluem, entre outros aspectos, a produção de alimentos saudáveis cultivados sem o uso de agrotóxicos ou fertilizantes sintéticos – compostos químicos que, dada sua elevada toxicidade, acabam por prejudicar o equilíbrio ecossistêmico e a própria saúde do produtor rural e do consumidor. A agroecologia já é entendida, por grande parte da comunidade científica e também pela FAO, como uma ferramenta indispensável para a promoção da justiça social, da saúde humana e do equilíbrio dos sistemas naturais.

Mais que isso: enquanto a atividade agropecuária, em nível global, passa por uma verdadeira renovação de valores e práticas, mercados acenam com exigências cada vez mais rigorosas com relação a quesitos sociais e ambientais. Isso significa que a agroecologia, a agricultura orgânica e demais formas de produção de base ecológica são – pelo menos na ótica de políticas públicas progressistas alinhadas às demandas do novo século – as melhores apostas para o futuro da sustentabilidade ambiental e da soberania alimentar. “Na comunidade europeia, por exemplo, a busca por produtos livres de agrotóxicos é muito grande e cresce a cada ano”, lembra Zandoná. “A produção em base agroecológica é uma tendência mundial; e quando um estado investe nesse segmento ele passa reduzir os gastos com saúde pública.”

Essa análise é endossada pelos estudos do economista Wagner Soares, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Ao final das contas, quem paga pela intoxicação dos trabalhadores e pela contaminação ambiental é a sociedade”, diz ele, baseado nos estudos que fez em propriedades rurais do Paraná. “Cada dólar gasto na compra de agrotóxicos pode custar aos cofres públicos 1,28 dólar em futuros gastos com a saúde de camponeses intoxicados.” Mas esse é um valor subestimado. Afinal, Soares contabilizou apenas os custos referentes a intoxicações agudas provocadas pelo contato direto com agrotóxicos. Levando-se em conta os casos crônicos, acrescidos da contaminação ambiental difusa nos ecossistemas, os prejuízos podem atingir cifras muito maiores.

Esse é um dos motivos que faz da agroecologia um campo de conhecimento cada vez mais valorizado na academia e nas políticas de estado em diversas nações. Segundo a FAO, a agricultura de base ecológica é praticada em mais de 170 países; ocupa 43,7 milhões de hectares e contempla 2,3 milhões de trabalhadores. Mas ela é minoritária diante da pujança do modelo hegemônico, isto é, o modelo agroexportador baseado no cultivo de commodities agrícolas. Ainda assim, a agricultura orgânica movimenta anualmente nada menos que 80 bilhões de dólares – sendo Estados Unidos, Alemanha, França e China os mercados que têm apresentado maior crescimento nos últimos anos.

“O mundo todo caminha nessa direção”, reforça o diretor-presidente do CPRA. Um exemplo: o governo da Dinamarca determinou que, a partir de 2025, a maior parte da produção agropecuária do país deverá ser orgânica. E esse será apenas o primeiro passo. Pois os dinamarqueses almejam, num futuro próximo, um país em que simplesmente toda a produção de alimentos seja livre de agrotóxicos e conduzida dentro dos princípios agroecológicos.

Henrique Kugler



  • Conheça o canal do CPRA no YouTube

  • Leia as notícias do CPRA no Medium

  • Conheça a página de apresentação do CPRA no Spark
Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.