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10/10/2017

Intercâmbio agroecológico: agricultores de São José dos Pinhais visitam propriedade orgânica em Piraquara

Foi uma quarta-feira ensolarada. Naquela tarde, um grupo de agricultores de São José dos Pinhais (PR) – ainda adeptos do modelo convencional de produção baseado no uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos – visitaram a chácara orgânica do senhor Mário Seichi Nakui, em Piraquara (PR). Objetivo da visita: demonstrar que outro modelo de produção é possível.

A propriedade de Mário e sua esposa, Elisa, é exemplo de sucesso e eficiência no cultivo de alimentos agroecológicos. A história do casal é longa: eles moraram por quase duas décadas no Japão. Lá, aprenderam tudo sobre agricultura orgânica e, quando voltaram para o Brasil, continuaram a exercer esse modo de produção que valoriza os conhecimentos tradicionais e coexiste em harmonia com a natureza.

Na chácara da família Nakui, chama a atenção a diversidade. “Temos aqui mais de 60 espécies agrícolas, além da criação de animais como galinha, ganso, cabra e peixe”, diz o senhor Mário. “Em termos de comércio, nossos principais produtos são rúcula, alface, agrião, tomate e morango.”

Todos caminharam pela chácara e, ao longo da tarde, puderam observar que o sistema orgânico pode ser, de fato, uma opção viável e rentável para a agricultura familiar.

A propósito, o dia da visita foi marcado por uma curiosa coincidência. Pois, na mesma data, a família Nakui recebeu os técnicos do Programa Paranaense de Certificação de Produtos Orgânicos (PPCPO) e a propriedade, já certificada pelo Instituto de Tecnologia do Paraná (TECPAR) há 12 anos, teve sua certificação renovada. “Nem sempre é fácil conseguir adequar uma propriedade rural à conformidade orgânica, mas o resultado vale muito a pena”, garante o senhor Nakui. Ele se refere à boa saúde da própria família; ao excelente nível de equilíbrio biológico atingido na propriedade; e, é claro, ao preços mais vantajosos que o mercado paga pelos produtos orgânicos.

Já no caminho de volta para casa, a equipe aproveitou para visitar a chácara da senhora Halina Haruko, também localizada em Piraquara. Ela tem se destacado na produção de morangos orgânicos em sistema elevado – com uma engenhosa estrutura de concreto que chamou a atenção dos visitantes. Hoje, a produção de morangos da senhora Halina é parada obrigatória para os frequentes visitantes que aparecem por conta do movimentado circuito turístico da região.

Troca de saberes

Muitos produtores rurais ainda são reticentes – ou mesmo céticos – quando o assunto é produção orgânica ou agroecológica. O motivo, em geral, é o mero desconhecimento. Mas os números são incontroversos: no Brasil e no mundo, o mercado para a agricultura de base ecológica só tende a crescer. “Hoje, percebemos muito claramente que a demanda por alimentos orgânicos está cada vez maior aqui em nossa região”, conta a senhora Elisa.

Sensibilizar cada vez mais agricultores para essa nova realidade foi um dos objetivos da visita da última quarta-feira. O evento foi organizado pelo Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) em parceria com a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) para mostrar aos produtores de São José dos Pinhais como funciona a agroecologia na prática.

Atualmente, agricultores da região da bacia do rio Miringuava, em São José dos Pinhais, enfrentam uma situação bastante complexa. Lá, a Sanepar está prestes a inundar parte da área – devido à construção de mais uma barragem projetada para aprimorar o abastecimento hídrico de Curitiba e arredores. Essa nova configuração territorial demandará maior cuidado com a agricultura praticada na região. Para a Sanepar, tratar uma água possivelmente contaminada por agrotóxicos seria um processo bastante caro e complexo. E, para a população, consumir essa água envolveria muitos riscos de saúde.

É por isso que a Sanepar tem todo o interesse em incentivar a agroecologia em São José dos Pinhais. Afinal, as práticas da agricultura de base ecológica não são prejudiciais aos ecossistemas e, ainda, podem ser importantes ferramentas para a preservação dos recursos hídricos. “Portanto, em um cenário ideal, gostaríamos de transformar toda a região da bacia do rio Miringuava num polo de produção orgânica ou agroecológica”, afirma a bióloga e gestora socioambiental Daisy Maia, da Sanepar.

Segundo ela, a região tem grande potencial para isso. “Mas, antes de qualquer coisa, é preciso que o produtor rural tenha vontade de participar dessa transição”, pondera Daisy. “Essa é a parte mais difícil.”

A conversão orgânica não é um processo tão simples: requer tempo, boa assistência técnica e investimentos. Mas, segundo Daisy, a própria Sanepar está disposta a auxiliar nesse processo – e oferecer condições vantajosas aos agricultores que optem pela conversão dos sistemas convencionais em orgânicos.

Desconfiados, muitos agricultores da região tendem a ser refratários à ideia. “Meu primo começou a produzir orgânicos no Miringuava e mal consegue vender sua produção”, disse uma das agricultoras durante a visita à Chácara Nakui. Entretanto, a história contada pelo senhor José Rosa é bem diferente. Ele, que também é agricultor agroecológico e mantém um propriedade orgânica em São José dos Pinhais, conta que mercado não é problema. “Eu mesmo entrego quase 150 cestas de produtos orgânicos toda semana aqui na região”, contabiliza. "E a procura só vem aumentando."

Segundo o engenheiro agrônomo Márcio Miranda, diretor-adjunto do CPRA, é natural que os agricultores da região tenham certa resistência a uma realidade nova. “Mas essa resistência acaba fazendo com que muitos não enxerguem a grande oportunidade que a produção orgânica pode trazer para a bacia do Miringuava”, diz. “O CPRA está empenhado em colaborar na capacitação em agroecologia daqueles que estiverem dispostos a iniciar o processo de transição”.

Henrique Kugler



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