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24/10/2017

Agroecologia em números: projeto do CPRA traz boas notícias para a produção orgânica e agroecológica na RMC

Como é a qualidade de vida dos agricultores orgânicos na Região Metropolitana de Curitiba? Quais são seus principais desafios? E qual é o estado de preservação ambiental de suas propriedades? Essas foram algumas das perguntas respondidas ontem (17/10/2017) pelos bolsistas do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) na última reunião dos agricultores do Núcleo Maurício Burmester do Amaral, da Rede Ecovida de Agroecologia. O encontro aconteceu em Pinhais (PR), no auditório do CPRA.

Ao longo dos últimos onze meses, a equipe do CPRA fez um diagnóstico detalhado das condições de produção e trabalho em 22 propriedades agroecológicas na Região Metropolitana de Curitiba. E desse estudo emergem algumas boas notícias. O chamado Índice de Qualidade de Vida Rural (IQVR), que é considerado alto quando se tem valores acima de 7, ficou na média de 8,02 para as propriedades analisadas.

O IQVR é uma metodologia de análise criada pelo Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) e vem sendo empregada em estudos de desenvolvimento rural. Esse índice avalia parâmetros como condições de saneamento da propriedade; destinação do lixo; infraestrutura de locomoção e transporte na região; serviços de saúde e educação; lazer; habitação e outros elementos.

Resultados positivos

Os indicadores ambientais observados nas propriedades acompanhadas pelo CPRA sugerem algum otimismo. As condições de preservação do ecossistema foram consideradas positivas – com uma nota de 82,2 numa escala de 0 a 10. A presença de mata nativa nas propriedades chama a atenção: em quase todos os casos, a área de Reserva Legal supera os 20% previstos em lei. “Em várias propriedades, aliás, florestas nativas são observadas em mais de 50% da área”, comentou a engenheira agrônoma Nataly Varela, bolsista do CPRA e integrante do projeto, durante a apresentação dos dados aos agricultores.

Também foram animadores os dados relacionados à gestão interna do lixo: nesse quesito, as 22 propriedades ficaram com uma média de 92,05 devido às práticas adotadas pelos agricultores agroecológicos que participam do projeto. Apesar disso, é preciso lembrar que nem sempre os municípios contam com sistemas eficientes de separação e destinação final dos resíduos.

Outra constatação importante: mais de 90% das unidades de produção estudadas pelo CPRA têm nascentes em bom estado de conservação. Enquanto isso, apenas 20% dessas propriedades enfrentam problemas de erosão – ainda que em estágio bastante inicial. Medidas técnicas bastante elementares, portanto, serão suficientes para remediar esses quadros. “O fato é que boas práticas conservacionistas aliadas à produção agropecuária foram observadas em 95% das propriedades que participam do projeto até o momento”, contextualizou a médica veterinária Bruna Blanco, integrante da equipe.

Vale lembrar que 70% dessas propriedades já fizeram seu Cadastro Ambiental Rural (CAR). Trata-se de uma importante ferramenta que o Governo Federal vem implementando nos últimos anos – esse cadastro permitirá ações mais eficazes para para fins de planejamento e regularização fundiária no país. O prazo para que agricultores de todo o país realizem seu CAR é maio de 2018.

Desafios

Pela própria natureza da produção agroecológica, é comum que os agricultores que optam por esse modelo não dependam em grande medida de insumos externos. Por exemplo, o controle de doenças e pragas nas propriedades acompanhadas pelo CPRA é pouco dependente de aportes advindos de fora das unidades de produção.

Por outro lado, essa autonomia não se verifica quando o assunto é aquisição de sementes e mudas. Em quase todas as propriedades, os agricultores ainda precisam adquirir sementes e mudas de viveiros convencionais, isto é, não orgânicos. “Esse é certamente um dos maiores desafios que a produção agroecológica enfrenta hoje”, lembrou o agricultor Hans Rinklin, de Tijucas do Sul.

É uma espécie de contrassenso: agricultores orgânicos simplesmente não encontram, nos mercados locais, sementes e mudas produzidas dentro dos preceitos agroecológicos. Assim, muitos acabam por adquirir sementes e mudas convencionais – oriundas de cultivos baseados no uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos prejudiciais ao equilíbrio do ambiente natural. Essa postura, na verdade, fere alguns dos princípios mais fundamentais da agroecologia. Apesar disso, a legislação orgânica no Brasil de fato permite o uso de sementes e mudas não orgânicas. Na reunião, foi cogitada uma possível alternativa: que os agricultores produzam suas próprias sementes e suas próprias mudas. Mas nem todos dominam o conhecimento necessário para tal. Por isso, uma das sugestões apresentadas durante o encontro de terça-feira foi a de organizar cursos e eventos de capacitação – para que os agricultores agroecológicos da região possam enfim diminuir sua dependência com relação aos produtos ofertados por viveiros convencionais.

“Mas não acredito que essa abordagem individualizada seja a melhor solução; a maneira mais eficiente de solucionar esse desafio é a organização coletiva para a gestão e circulação das sementes e mudas agroecológicas”, comenta o agrônomo Manuel Delafoulhouze, do CPRA. “Existe, inclusive, uma boa variedade de sementes orgânicas produzidas pelos próprios agricultores da Rede Ecovida, disponíveis a preços acessíveis, na Casa da Semente, inaugurada em Mandirituba (PR) em março de 2016.”

Diversos outros desafios foram constatados durante a análise das propriedades. Alguns deles são a falta de assistência técnica especializada em agroecologia; dificuldades com planejamento de produção; e logística.

O projeto

Todas essas informações são parte dos resultados preliminares do projeto Produção em Base Agroecológica na Região Metropolitana de Curitiba – conduzido pelo CPRA em parceria com o Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER). A iniciativa é financiada pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI) e faz parte do Hortaliças Saudáveis, um programa estratégico da Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SEAB).

Atualmente, os membros do projeto acompanham 22 propriedades rurais agroecológicas. Mas, nos próximos meses, essa rede deverá ser ampliada para 36 unidades de produção. Os dados, uma vez compilados e sistematizados, serão de grande valia para o planejamento territorial da região. Além disso, oferecerão um panorama inédito acerca dos desafios do desenvolvimento rural no estado.



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