Vídeos

Artigos

16/01/2018

Sustentabilidade: reflexões sobre um conceito mal compreendido

Muitas vezes, para poder encontrar o rumo certo, precisamos voltar às origens e começar tudo de novo. Isso também acontece com as palavras – que vão sendo desgastadas pelo uso e abuso e, assim, perdem o significado original. Um bom dicionário etimológico pode ajudar a reencontrar o verdadeiro sentido de certas palavras que foram desviadas de sua origem pelo modismo. E parece que ‘sustentabilidade’ é, de fato, um desses termos vitimados pelas modas correntes. Todos falam de boca cheia em sustentabilidade, mas não param para pensar sobre o que essa palavra significa. Façamos uma reflexão…

Desenvolvimento sustentável, cidade sustentável, agricultura sustentável. Falamos em todos esses termos e raramente explicamos o que entendemos por ‘sustentável’.

Primeiro, há de se considerar que a vida do ser humano é sustentada pelo ar que respira, pela água que mata a sede, pela terra que fornece alimentos e pelo o fogo que fornece calor e aquece a vida. Portanto, o homem depende da natureza para seu sustento.

Segundo, é preciso considerar que a natureza, para oferecer ar puro, água potável, solo fértil e calor confortável, precisa manter uma conexão equilibrada entre todos os seres vivos da fauna e da flora. Em outras palavras, os seres vivos – plantas, insetos, micróbios e animais, entre tantos outros – estão vinculados aos elementos fundantes ar, água, terra e fogo. Eles tanto se sustentam a partir desses elementos como os reproduzem e os devolvem ao conjunto da natureza. Utilizam, reproduzem e devolvem ao planeta.

A planta, na presença da luz do sol, realiza a fotossíntese e assim renova o oxigênio do ar. Ela também exerce seu papel na complexidade do ciclo hidrológico, a partir do qual brotam fontes de água e nascem os rios, que alimentam os mares. Inúmeros insetos e microrganismos trabalham na porosidade da terra, oxigenando-a. Há ainda os que trabalham na polinização das flores. Enfim, todos trabalham na sustentabilidade do planeta e da vida. Vivemos, portanto, numa grande rede – a “teia da vida”, segundo o físico austríaco Fritjof Capra. Nessa cadeia, nenhum desses incontáveis seres julga-se dono absoluto da natureza. Todos são parte dela. Na verdade, a natureza pertence às gerações futuras de cada espécie: é como se cada geração tivesse tomado emprestados os elementos naturais com o compromisso de usá-los, reciclá-los e devolvê-los às gerações vindouras.

Em terceiro lugar, é preciso considerar que a natureza é também a casa do ser humano. É nosso lar. E ‘lar’, em grego, é denominado ‘oikós’. Daí vem a palavra ‘ecos’ – não confundir com ‘ego’ que significa ‘eu’. Da palavra ‘eco’, isto é, casa, geraram-se as palavras que seguem:

  • Eco-nómos = economia. É o conjunto de normas e regras que regem a casa (‘nómos’ = regras, em grego);
  • Eco-lógos = ecologia. É o estudo das leis da natureza, que é a casa dos seres vivos (‘lógos’ = estudo, conhecimento);
  • Eco-sistema, ou ecossistema. É a forma ou estrutura dentro da qual a natureza está organizada e equilibrada.

Em quarto lugar, devemos notar que o ser humano não vive isolado da natureza e de seus semelhantes. O homo sapiens é agregador e, por isso, precisa de seus semelhantes para se autoafirmar; precisa do sentimento de pertencer a um grupo.

Na maioria das estórias que narram as origens do ser humano, fala-se de sua relação com a terra. O homem nasce do pó, o pó da terra. E à terra ele voltará. Interessa-nos registrar que o homem primitivo vivia numa relação de equilíbrio direto com a natureza. Ele habitava as cavernas naturais. Não plantava e simplesmente vivia da coleta e da caça. Vivia numa dependência tão estreita da natureza, que dela sentia-se parte.

Foi só bem mais tarde, com o desenvolvimento da inteligência, que o ser humano passou a desenvolver técnicas para dominar o mundo natural. Na mitologia grega, o maior desvio que distanciou o homem da ordem do cosmo foi quando uma deusa malvada o ensinou a dominar o fogo e, com o fogo, ele passou a enquadrar a natureza segundo seus apetites. Que o digam os gaúchos, com seu churrasco!

O homem, então, submeteu a natureza à sua vontade ou, não raramente, à vontade do seu ego. Já não vivia em cavernas. Distanciou-se da natureza e sua relação com ela passou a ser de dominação. Tal posição dominadora gerou um profundo e perigoso desequilíbrio. E teve início, assim, um modo de vida insustentável que, em última instância, passa a ameaçar o planeta e a própria sobrevivência da espécie humana.

Não devemos desmerecer a extraordinária e fabulosa evolução do conhecimento técnico do ser humano. Mas é necessário colocar essas habilidades a serviço de uma reconstrução saudável, equilibrada e sustentável da vida – numa relação harmoniosa com a natureza, nossa casa maior, vista em sua totalidade.

Precisamos abandonar a atitude antropocentrista. E reconhecer que somos apenas parte da natureza; não o centro dela, como pregaram alguns pensadores iluministas após o renascimento.

Não pretendemos evitar que o homem, em sua evolução natural, construa cidades e estruturas que proporcionem conforto material. Mas é preciso compreender que esse novo habitat continua a ser sustentado pelo ar, pela água, pela terra e pelo fogo. São, em última instância, elementos que a natureza em seu conjunto oferece, reproduz e preserva.

Assim, concluímos que uma cidade sem adequado sistema de esgoto; sem coleta e destinação correta de lixo; sem área verde; sem água tratada e preservada em suas fontes; sem vias drenadas com tubulação pluvial; sem respeitar o declive natural dos morros e encostas do seu relevo físico; torna-se insustentável. As epidemias, doenças e catástrofes naturais – que de tempos em tempos assolam grandes centros urbanos – são inevitáveis em cidades construídas sem a visão da sustentabilidade. Resumindo:

  • Os elementos fundadores ar, água, terra e fogo sustentam a fauna e a flora e são por elas usados, reproduzidos e devolvidos à natureza;
  • A fauna e a flora formam uma rede da vida, compondo uma natureza autossustentada e equilibrada;
  • O ser humano pertence a essa rede da vida e nela tem seu habitat, ou seja, sua casa (‘oikós’). É daí que surgiram os termos ecologia, economia e ecossistema.
  • Por último, vimos que o ser humano, por meio da evolução de seu conhecimento técnico, enclausurou-se em seu próprio ego e distanciou-se da natureza. Em vez de a ela integrar-se harmoniosamente, tornou-se um exterminador da sua própria casa e, por consequência, dele mesmo.

Concluímos então que, quando se clama por sustentabilidade, estamos a convidar a humanidade a voltar às suas origens – e contemplar na mãe natureza sua própria natureza.

Esse apelo transcende o conhecimento tecnológico. Ele atinge outra dimensão da vida humana: a consciência. É aqui que entra a filosofia: ela nos traz ponderações sobre a ética – que nos incitam ao estudo de nosso comportamento – e também ponderações sobre a epistemologia – disciplina que nos convida a uma reflexão sobre os fundamentos conhecimento humano.

Sempre que dispensamos a reflexão ou o pensar filosófico, caímos no fundamentalismo da intolerância extremista. Em tempo: mesmo o fascismo encontrou sua expressão em uma forma de pensar baseada em ciência. Mas nem tudo que se diz científico corresponde a um saber autêntico de uma leitura filosófica do mundo. Afinal, qual é a relação entre a sustentabilidade e a consciência humana? É disso tratarei em meu próximo artigo: “Não só de pão vive o homem”.


Gernote Kirinus
Teólogo e filósofo, é pós-graduado em antropologia filosófica e sociologia política. Atualmente trabalha como pesquisador do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) na área da ética e epistemologia.



  • Conheça o canal do CPRA no YouTube

  • Leia as notícias do CPRA no Medium
  • Conheça a página de apresentação do CPRA no Spark
Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.