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05/03/2018

Plantamos tudo que dá na época: conheça o mais antigo grupo de consumidores de alimentos orgânicos do Paraná

Uma vez por semana, funcionários da Companhia Paranaense de Energia (Copel) têm uma rotina diferente: eles recebem, em seu local de trabalho, uma cesta de produtos orgânicos fresquinhos, colhidos no dia e entregues pela agricultura Rosilene Santos. Ela mantém, em Campo Largo (PR), uma propriedade agroecológica – onde não utiliza uma gota sequer de agrotóxicos, fertilizantes sintéticos ou quaisquer outros produtos químicos danosos ao ambiente e à saúde humana.

Essa agradável rotina semanal repete-se desde abril de 2010. Foi quando Rosilene conheceu o engenheiro agrônomo Raul Matias Cezar, então membro do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA). Ele sugeriu a criação de um grupo de consumidores de alimentos orgânicos na Copel e, desde então, a estratégia tem funcionado muito bem. Trata-se do mais antigo grupo do gênero aqui no estado. E provavelmente o maior: “São aproximadamente 150 cestas por semana”, contabiliza a agricultora.

Rosilene planta de tudo um pouco: “Cultivamos tudo que dá na época”. Batata, mandioca, cenoura, beterraba, brócolis, tomate, abobrinha, alface, rúcula, espinafre, repolho, milho, pimentão, morango… “É importante diversificar a produção para que a cesta contenha uma boa variedade de produtos”, explica. São hortaliças para todos os gostos!

O paladar original

“O pessoal fica contente demais com as cestas; eles gostam principalmente das raízes”, diz a agricultora. “O único produto que não teve muita procura foi o jiló.” Rosilene conta nos dedos o número de pessoas que de fato aprecia esse desprezado, porém muito saudável, fruto da família das solanáceas – parente, portanto, do tomate e da berinjela.

Fora o jiló, tudo parece estar indo bem. Há duas semanas, uma das consumidoras de Rosilene não economizou elogios enquanto buscava sua cesta semanal: “A batata da semana passada estava tão saborosa, tão deliciosa!”.

Mas, indagada pela reportagem, Rosilene confidenciou: “O curioso é que, na verdade, aquela batata não tinha nada de especial; era apenas batata”. A diferença, segundo a agricultora, é que os consumidores acostumaram-se a produtos comercializados em supermercados – quase sempre com doses excessivas de agrotóxicos. O uso dessas substâncias induz uma demasiada artificialização dos processos agronômicos e, na prática, isso significa que consumidores de hortaliças convencionais habituaram-se a ingerir produtos cultivados fora de época. Além de impactar negativamente o sabor, esse hábito nos distancia dos ciclos da natureza.

Saúde e equilíbrio

Segundo Henrique Watanabe, funcionário da Copel e membro do grupo de consumidores, participar dessa iniciativa é um caminho para uma alimentação mais saudável. “Além de consumirmos alimentos orgânicos de excelente qualidade, é também uma maneira de valorizar e incentivar a agricultura familiar em nossa região”, opina.

“Agricultura orgânica é sinônimo de saúde; tanto para nós produtores quanto para nossos clientes”, complementa Rosilene. “Ao produzir alimentos no sistema agroecológico, contribuímos também com a preservação da natureza”, explica a agricultora. Ela diz que a agroecologia – ao contrário da agricultura convencional – favorece a biodiversidade, melhora a qualidade do solo e ainda auxilia na preservação dos recursos hídricos.

“Lá em casa, ficar doente é algo raro”, brinca Rosilene. “No máximo uma gripe, ou dor nas costas de vez em quando por carregarmos um pesinho a mais aqui ou ali.”

Comércio inteligente

Além de saudável e cômodo para os clientes, esse método de comercialização traz inúmeras facilidades para quem produz. “Dá bastante trabalho gerenciar a produção e entregar as cestas, mas o processo é bastante compensador”, diz Rosilene. “O pessoal já é quase da família: mandam mensagem, visitam a propriedade de vez em quando…” Não raramente, essa dinâmica de comercialização acaba por criar vínculos de amizade entre agricultores e consumidores. Em outras palavras, essa parceria solidária diminui a distância entre o rural e o urbano.

“É uma forma mais humanizada de valorizar quem cuida da saúde de nossa família e do planeta”, afirma o engenheiro agrônomo Manuel Delafoulhouze, do CPRA. “Para participar, os membros dos grupos devem assumir compromissos bastante simples: o pagamento mensal, das cestas, a pontualidade nos dias da entrega e, sobretudo, valorizar a alimentação saudável e a relação de solidariedade entre agricultores e consumidores.”

Manuel é coordenador do projeto Cestas Solidárias, cujo propósito é disseminar a construção de grupos de consumidores como o da Copel – em empresas, escolas, igrejas ou academias, por exemplo. Uma vez criado um novo grupo, a equipe do CPRA coloca-o em contato com uma ou mais famílias de agricultores da região. O resultado é, como noticiou recentemente a Gazeta do Povo, uma parceria duradoura e virtuosa. “E não precisamos pagar mais caro pelo alimento orgânico”, acrescenta Manuel.

O Laboratório de Mecanização Agrícola (Lama), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), também vem apostando na ideia. Ao longo dos últimos 4 anos, o trabalho do CPRA e da UEPG resultaram na criação de mais de 30 grupos de consumidores de produtos orgânicos. E novos grupos surgem praticamente todos os meses, como mostra o seguinte mapa interativo:



A democratização dos orgânicos

Todas as propriedades selecionadas para o projeto Cestas Solidárias são orgânicas certificadas – ou, nalguns casos, ainda em fase de certificação. “Isso garante que o sistema de produção não usa qualquer tipo de moléculas sintéticas, como fertilizantes, agrotóxicos, organismos geneticamente modificados, reguladores de crescimento ou outros insumos nocivos à saúde”, informa o Lama.

Além da Copel, outros órgãos públicos no Paraná já oferecem a seus funcionários a oportunidade de ter uma alimentação mais saudável e conveniente por meio do comércio de cestas agroecológicas. Alguns exemplos são a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI); a Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SEAB); o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar); e as secretarias municipais de saúde e educação em São José dos Pinhais.

Há também grupos em escolas. É o caso do Colégio Estadual Maria da Luz Furquim, em Rio Branco do Sul; do Colégio Newton Freire Maia, em Pinhais; do Colégio Integral, em Curitiba; da Escola Céu Azul, também em Curitiba; entre vários outros exemplos.

Criar um novo grupo de consumidores de alimentos agroecológicos é fácil. Basta seguir os passos indicados na página do projeto Cestas Solidárias e entrar em contato com o CPRA.

Henrique Kugler



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