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26/04/2018

Abelhas nativas: nossas brasileirinhas

Nos dias do descobrimento do Brasil, conta a tradição que Cabral foi presenteado por um índio pataxó com uma cabaça de mel. Como em 1500 aqui só havia abelhas sem ferrão, muito provavelmente ele ganhou mel de uruçu – comum naquelas paragens e naquele tempo.

Foram os índios os primeiros ‘criadores’ das abelhas sem ferrão. Por esse motivo, elas são por vezes chamadas de ‘abelhas indígenas’, ou simplesmente ASF, a forma abreviada do termo ‘abelhas sem ferrão’.

Quando perguntamos a uma pessoa o que ela lembra quando ouve a palavra abelha, é quase certo que responderá “mel” ou “ferroada”. E logo há de contar uma história sobre o tema… Mas a grande maioria nem sabe, ou nem lembra, que a função mais nobre das abelhas é, na verdade, a polinização.

A importância da polinização

Polinização é o transporte do grão de pólen (elemento masculino da morfologia floral) para o pistilo (elemento feminino) da mesma flor ou de outra da mesma espécie. É graças a esta dinâmica que ocorre a fecundação – processo que garante a formação da semente e, por consequência, resulta na perpetuação das espécies vegetais.

A polinização pode ocorrer pela interferência de diversos agentes: vento, água, pequenos animais, morcegos, alguns besouros, pássaros… Porém, em mais de 90% dos casos, são as abelhas os mais importantes agentes polinizadores disponíveis na natureza.

Apesar do grande número de espécies de abelhas existentes, e da grande diversidade estrutural e comportamental por elas apresentada, praticamente todas dependem dos produtos das flores para sua alimentação: néctar, pólen e óleo. As abelhas visitam as flores buscando não só alimento, mas também material de construção e abrigo.

Benefícios à agricultura

Mais de dois terços da agricultura global acontece nos países em desenvolvimento. Nestas regiões, os processos agrícolas são pelo menos 50% mais dependentes da polinização comparativamente à agricultura praticada em países desenvolvidos. No caso das culturas dependentes da polinização, nos países em desenvolvimento, a ausência de polinizadores traria relevantes perdas: estima-se que seria necessária uma área de cultivo seis vezes maior para se obter a mesma produtividade apresentada pelos países desenvolvidos (Aizen et al., 2009).

Somente na América do Sul, os serviços de polinização foram estimados em cerca de R$ 45 bilhões por ano (Gallai et al., 2009; Potts et al., 2010). No Brasil, apenas oito culturas dependentes de polinizadores são responsáveis por mais de R$ 29 bilhões em exportações (Freitas e Imperatriz Fonseca, 2004).

Biodiversidade em risco

Porém, apesar de vitais para a agricultura e para os ecossistemas terrestres, os serviços de polinização por abelhas vêm sendo prejudicados por inúmeros fatores que afetam as populações silvestres destes insetos. Um destes fatores é a perda de habitat. Pesquisadores têm observado grande redução na diversidade e abundância de abelhas em diferentes locais do planeta.

Desde os tempos de Cabral, nossas florestas vêm sendo derrubadas e consumidas por interesses econômicos os mais diversos. Como nossas abelhas nativas normalmente usam árvores para construírem seus ninhos, é claro que as populações destes insetos estão sendo prejudicadas ou mesmo extintas. Aliás, algumas espécies de abelha por certo já se extinguiram – e nós nem chegamos a conhecê-las.

As abelhas evoluíram de uma espécie de vespa, a partir do aparecimento das primitivas fanerógamas – isto é, das plantas com flores – há cerca de 200 milhões de anos. Há mais ou menos 140 milhões de anos, estas plantas se multiplicaram e dominaram os ecossistemas terrestres em um tempo relativamente breve. E foram as abelhas as responsáveis pelo sucesso evolutivo destas plantas, com as quais desenvolveram uma relação muito estreita. Era como se existisse um contrato: “Vocês nos dão alimento e abrigo; e nós garantimos sua perpetuação”.

Toda a anatomia da abelha evoluiu de uma maneira deveras especializada para a exploração da flor. E as flores, assim, passaram a ser dependentes destes insetos. Por isso, costuma-se dizer: “Não existe abelha sem flor e nem flor sem abelha”.

Imensa riqueza

As abelhas distribuem-se por todo o mundo. Existem muitas espécies em diferentes regiões: não apenas espécies e gêneros, mas também famílias podem ser endêmicas de uma determinada localidade, isto é, encontradas apenas ali. Considerando que abelhas e plantas silvestres estão associadas há tantos milênios, é fácil compreender a mútua dependência estabelecida entre elas. Esta relação evolutiva perpetua-se até os dias de hoje: abelhas continuam a depender de plantas locais para sua sobrevivência; enquanto as plantas de diferentes ecossistemas, para sua perpetuação, também continuam a depender do serviço de polinização oferecido pelas abelhas.

Diferentes ecossistemas apresentam diferentes fatores biológicos e geográficos como luminosidade, disponibilidade hídrica, salinidade, umidade, ventos, altitude, latitude e tantos outros. Todos estes elementos influenciam não apenas a evolução das espécies da flora, mas também das espécies da fauna. É por isso que as matas e as abelhas encontradas na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul são diferentes daquelas que encontramos na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Pelo mesmo motivo, estas espécies serão diferentes daquelas observadas na região central do Paraná, que, sem dúvida, serão também distintas daquelas que ocorrem no litoral do estado. Resumindo: em diferentes tipos de mata, encontraremos diferentes tipos de abelha.

Hermes Palumbo
Engenheiro agrônomo e meliponicultor



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