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02/05/2018

Agroecologia e criação animal: sobre as tradições e o anseio por uma sociedade mais justa

Em propriedades rurais orgânicas ou agroecológicas, a produção animal é deveras peculiar. O bem-estar dos bichos é prioridade máxima; sua alimentação deve ser cuidadosamente selecionada; e o espaço para que cresçam e se desenvolvam deve ser livre e agradável; além, é claro, de inúmeras outras especificações técnicas e ambientais que, por vezes, podem tornar a atividade bastante complexa.

Foi para discutir esse interessante tema que, na última quarta-feira (25/04/2018), o Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) recebeu agricultores, técnicos, bolsistas e acadêmicos durante o Dia de campo: criação animal na propriedade familiar e a conformidade orgânica. O evento foi organizado pelo Programa Paranaense de Certificação de Produtos Orgânicos (PPCPO).

Os participantes, divididos em quatro grupos, circularam por quatro estações de visitação ao longo do dia: o sistema de produção de leite orgânico; a criação de suínos; o galinheiro de bambu; e a criação de abelhas nativas.

“Além de propiciar o contato com nossos pares, um dia como esse é importante para aprimorarmos nosso entendimento acerca da legislação orgânica em vigor”, comenta a agricultora Eliane Lima, de Colombo (PR).

A estudante de zootecnia Juliane Burda, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostrou-se entusiasmada com o encontro. “Gostei muito do que aprendi sobre os sistemas de criação do porco da raça moura”, diz. “O uso correto da compostagem, associando a produção vegetal à produção animal, também pode oferecer oportunidades muito interessantes para os produtores rurais”, comenta a estudante.

Agroecologia, sociedade e meio ambiente

A palestra principal do evento ficou por conta do engenheiro agrônomo Marcelo Silvestre Laurino, fiscal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Ele falou sobre os desafios da produção animal nas propriedades familiares agroecológicas, sobre as vantagens dos sistemas orgânicos em relação aos convencionais e sobre a importância dos conhecimentos tradicionais no desenvolvimento de uma agricultura em harmonia com a natureza.

“Aliás, muito do que aprendemos aqui são técnicas que meus avós já conheciam e praticavam em suas criações de animais”, lembra agricultora Marina de Mattos Rosa, que veio de Castro (PR) para participar do encontro. “Como diz um antigo provérbio indígena, nós não estamos herdando a terra de nossos avós. Na verdade, nós a estamos emprestando de nossos netos”, disse Marcelo, reforçando a importância do saber ancestral que a agroecologia busca resgatar e aprimorar.

O pesquisador também falou dos impactos que os modelos convencionais de agricultura estão a provocar nos ecossistemas: “O uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos resulta, cedo ou tarde, na contaminação das águas”, preocupa-se Marcelo. “Em muitos locais do Brasil, a população já está, provavelmente, tomando água envenenada por esses insumos prejudiciais à nossa saúde.”

Aproximação entre campo e cidade

Além de apostar numa agropecuária mais responsável do ponto de vista ambiental, Marcelo também acredita que temos muito a avançar na questão sociológica. Para ele, precisamos aproximar os agricultores dos consumidores. E o palestrante lançou até uma provocação: “Todos sabem o nome de seu médico, de seu dentista e até do mecânico do seu carro; mas quem dentre nós sabe o nome do agricultor que cultiva seu alimento?”, indagou.

Marcelo aposta nos modelos de CSA. Trata-se de um termo em inglês que significa ‘Agricultura Sustentada pela Comunidade’. “É um excelente exemplo de cooperação entre agricultores e consumidores”, defende o fiscal do MAPA.

Nesse modo de comercialização, grupos organizados de consumidores pagam um valor mensal para que recebam, a cada semana, produtos orgânicos ou agroecológicos frescos, da época e cultivados por um agricultor ou agricultora das proximidades – o que acaba por desenvolver uma relação de mais confiança, e mesmo amizade, entre o mundo rural e o urbano. Tal modo de interação já faz sucesso no mundo todo. No Paraná, uma das manifestações dessa ideia é o projeto Cestas Solidárias, mantido pelo CPRA. Segundo Marcelo, essa é uma forma inovadora e eficiente de garantir boa renda ao produtor rural e alimentação saudável aos consumidores.

“O individualismo está nos matando enquanto civilização”, preocupa-se o pesquisador. “Precisamos, sobretudo, cultivar mais solidariedade.”

Henrique Kugler



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