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30/07/2019

“A vida pode ser melhor, mais saudável e humana. Precisamos mostrar que é nisso que acreditamos” | Perfil de Andrea Silva

Por Thaiany Osório

Não está errado quem pensa que Andrea Bueno Silva tem uma vida agitada. Não é incomum vê-la participando de reuniões, integrando turmas de capacitação ou cozinhando. Na sua cozinha, o rádio ligado na estação “Novo tempo” é a companhia perfeita para quem, nos dias de agito, precisa entregar uma encomenda de 70 pães. A antiga funcionária de Recursos Humanos hoje administra uma empresa familiar de alimentos, que em sua linha básica possui quase 30 produtos, entre bolos, molhos, geleias e massas. Andrea também tem uma plantação de 4000 pés de morangos e, junto com seu esposo Rubens Augusto Pires, gerencia a fazenda que hoje é propriedade referência no Paraná. Ah, já ia esquecendo: ela também é uma das organizadoras da Sétima Festa Regional da Semente Crioula.

Natural de Curitiba, mudou-se ainda bebê para Goiás, onde morou em um vilarejo chamado Luziânia, típica cidade do interior. Sua mãe era professora da única escola da cidade e vez ou outra a família se reunia para visitar cachoeiras. Aos nove anos voltou para Curitiba e teve que se adaptar ao agito e aos perigos da cidade grande. Incentivada pelos pais a nunca parar de estudar, se formou em administração com ênfase em gestão ambiental. Na época, pensava que depois de formada moraria sozinha e nunca se casaria. Entretanto, logo conheceu Rubens, casou e foi morar no sítio da família dele em 2007.

Quando sua filha Helena nasceu, em 2010, Andrea optou por ficar em casa cuidando dela. Por um tempo, foi difícil se situar na fazenda. “Sempre trabalhei em empresa privada, então eu pensava ‘o que mais posso fazer aqui?”, conta ela. Quando a menina completou dois anos, Andrea decidiu que era hora de ter uma atividade para si na fazenda. Como sempre gostou de cozinhar, e o sonho do Rubens era ter uma pequena fábrica, Andrea decidiu seguir no ramo alimentício, abrindo uma empresa de biscoitos. Paralelamente aos biscoitos, começou a plantar morango. O que o casal não esperava era que a plantação fosse um sucesso tão grande. A quantidade imprevista de morangos fez com que abandonassem o plano de vender biscoitos e passassem a vender geleia. A ideia, ingênua no começo, hoje é o carro chefe da sua marca, chamada “Di Helena”.

Dona de uma personalidade que não espera convite bater à sua porta, logo Andrea descobriu um projeto de certificação através do SEBRAE, onde aprendeu sobre rotulagem e manual de boas práticas para sua indústria. Também foi ali que ficou sabendo sobre a legislação dos produtos orgânicos. Ela, que nunca usou agrotóxicos e “nem mesmo saberia onde comprá-los”, viu que seu produto se encaixava na legislação. Logo foi apresentada a Rede Ecovida e, por meio da certificação participativa, certificou a propriedade e a agroindústria em 2012.

Apesar de todas as dificuldades que a comercialização, certificação e busca por insumos de qualidade apresentaram nos primeiros anos, foram as barreiras impostas por ser mulher que mais chamaram a atenção. Conta que uma vez foi esnobada pelo funcionário de um banco, que jogou longe seu projeto e se recusou a abrir uma conta para ela. Além disso, como seu marido trabalhava fora, por muito tempo não conseguiu se enquadrar na agricultura familiar. Foi somente quando as regras da Lei da Agricultura Familiar mudaram, que viu sua atividade na fazenda valorizada. Assim, se enquadrou em agricultura familiar e conseguiu em 2018 um financiamento para finalizar o projeto da agroindústria.  

Após quase 10 anos vendendo alimentos e pelo menos dois com a agroindústria finalizada, Andrea percebe que os clientes têm prazer em consumir o alimento que oferece. Ela, que gosta de uma comida sincera de “vovó”, acredita que a energia boa que é colocada em cada alimento que produz reflete naquilo que é vendido. É nesse aspecto que Andrea escolheu uma receita familiar, passada por sua mãe, para servir na Festa Regional das Sementes Crioulas. Esse já é o quarto ano em que participa do evento e, este ano, estará vendendo fatias de torta de ricota com geleia de frutas, nas opções de morango, amora, uva, maracujá e physalis - fruto alaranjado e pequeno, semelhante à quincã.

Apesar da vida agitada, não é a correria que define Andrea, mas sim sua determinação. Hoje, se vê como uma mulher que está tentando encontrar o seu espaço, mas que não abre mão daqueles que já conquistou: mãe, agricultora, estudiosa, esposa. Como pessoa de muita fé, que raramente sucumbe ao negativismo, quer conscientizar mais as pessoas, mostrar através das suas ações e dos seus produtos que ela acredita que a vida pode ser melhor, mais saudável e mais humana. Conta que gostaria de ter conhecido a Rede Ecovida antes, pois foram as pessoas que passaram pelo seu caminho que lhe ensinaram que, enquanto ser vivo, todas as suas ações têm um impacto direto na natureza. A retribuição desse cuidado ela observa no alimento limpo que colhe, nas refeições que vende, e na profissão que, com muito orgulho, escolheu para si.

Arte refeição Andrea
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