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01/08/2019

“Posso ser teimosa, mas não saio mais do meu caminho” | Perfil de Carina Biancardi

Por Thaiany Osório

Carina não fica na falação, prefere a ação. Caçoou, enquanto bebericava um pouco de café: “antes de sair de casa, passo um pouco de óleo de peroba no rosto para manter a cara de pau em dia”. Tal hábito lhe ajudou - e muito - a enfrentar todos os tropeços, curvas e desvios que a vida apresentou nos últimos anos. Mãe da Rafa, de 15 anos, e da Maria, de apenas dois, Carina divide a sua rotina entre trabalhar em um restaurante no bigorrilho, gerenciar junto com outras quatro mulheres a AOPA (Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia), e construir a sua casa na propriedade da sua família, que fica em Bocaiúva do Sul, região Metropolitana de Curitiba (PR). 

Contudo, é um erro pensar que o caminho que levou Carina até a agroecologia foi fácil. Nutricionista por formação, Carina tem quase 10 anos de experiência em salas de aula, integrando corpos docentes de pelo menos três universidades do Paraná. Em 2015 ela estava na Itália, em um evento sobre Slow Food, quando se deparou com preceitos que gostaria de seguir. O Slow food, movimento nascido na Europa dos anos 90, prega a redução da velocidade da vida contemporânea, o amor pela gastronomia e o resgate dos alimentos saudáveis. O evento, considerado por ela como “grande festa mundial da semente”, foi o que bastou para que voltasse ao Brasil com outro olhar. 

Carina retomou “o caminho da sua vida” assim que pisou em solo brasileiro. O primeiro passo, conta ela, foi voltar para o lugar em que havia nascido. A terra, de 134 hectares, foi adquirida pelo seu avô, Pedro Biancard, há exatos 40 anos. Quando Carina fez seis anos a família se mudou para Curitiba para que ela e o irmão, Cássio, pudessem concluir os estudos na Capital. Atualmente, Cássio e seu pai, Cidomar Biancardi, também voltaram para o sítio. A terra, descrita por Carina como “comprida”, possui uma leiteria orgânica gerenciada por Cássio, uma mata robusta e preservada, a casa do seu pai, e o local que escolheu para construir sua nova casa. 

O segundo passo se deu a partir dos contatos e vínculos que Carina foi construindo. No mesmo ano do evento do Slow Food ela conheceu a rede Ecovida e certificou sua propriedade. Entre 2016 e 2017 Carina foi coordenadora da AOPA e, no ano seguinte, assumiu a direção. Em 12 anos de história, essa é a primeira vez que a AOPA tem uma direção composta inteiramente por mulheres. 

Quanto à agroecologia, vê que o movimento precisa avançar em duas frentes: a primeira, da visibilidade. Carina sente que as pessoas não conhecem a agroecologia e, para reverter esse quadro, a associação de consumidores é fundamental. A segunda, entretanto, diz mais respeito aos agricultores e simpatizantes da agroecologia. Reconhece que muitas vezes a ânsia pela comercialização e pelo lucro afastam as pessoas do movimento e do “ser agroecológico no dia a dia”. Aos 45 anos, Carina não se vê mais na idade de querer mudar o mundo. A maturidade lhe trouxe a vontade de ser um exemplo. “Eu faço a minha parte, e acredito no potencial das pessoas”, explica ela.

Carina se descreve como uma cozinheira por amor, nutróloga por formação e camponesa por essência. Italiana de pai e mãe, para ela a cozinha é o centro de tudo, o maior ambiente da casa, refúgio quando está triste ou quando está feliz. Quando pensa em uma memória, lembra de si pequenininha, na cozinha da sua avó, brincando com uma panela e uma colher. Lembra também de vender pão de queijo na escola, já na adolescência. 

A inegável ligação com a alimentação e com a agricultura fazem de Carina uma participante assídua da Festa da Semente. Esta é a sexta festa que comparece e, neste ano, será uma das expositoras na feira Gastronômica, servindo uma versão agroecológica do sanduíche natural. Na receita irá pão artesanal, maionese artesanal, picles e dois sabores principais: cogumelos e frango caipira. Todo final de ano Carina e Cristian Fritz, seu companheiro, viajam para o litoral e vendem o sanduíche, oferecendo de guarda-sol em guarda-sol. Carina e Cris também usam essa oportunidade para testar o produto. Com um recorde de 80 unidades vendidas em um dia, a dupla não poderia estar mais confiante. 

Toda a sua história, Carina garante, "encheria as páginas de um grande livro". Reconhece que o seu diferencial é a alma de guerreira, que a faz levantar da cadeira e ir atrás dos seus sonhos. Percebe que por muito tempo ficou desconectada da sua essência, como se desse mais ouvidos ao que o mundo tinha a dizer, e não ao que sua alma sussurrava. Sente que as lições que a vida lhe passou nos últimos 10 anos foram dolorosas, mas necessárias para reconecta-la. Por isso, Carina é categórica: “Posso ser teimosa, mas não saio mais do meu caminho”.

Arte Cardápio

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