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12/08/2019

“É muito gratificante você fazer algo que faz bem para a saúde das pessoas” | Perfil de Cláudia Nunes

Por Thaiany Osório


Quando vi Cláudia Nunes pela primeira vez ela trazia um pão quentinho nas mãos, usava um turbante na cabeça e roupas bem coloridas. Semanas mais tarde, em uma entrevista feita pelo WhatsApp, Cláudia me contou que costumava dar muito trabalho à sua mãe. Natural de Franca(SP), era inquieta, brincalhona e não parava sentada nem por um minuto. Sua infância é o retrato que nos vem à mente quando pensamos em crianças felizes e saudáveis brincando. Hoje, aos 43 anos, essa essência não se perdeu: Cláudia continua uma mulher animada, conhecida e reconhecida na região de Quatro Barras(PR) pelos alimentos que inventa, produz e comercializa. O pãozinho que trazia consigo, inclusive, deixou um aroma na sala que levou quase um dia para se dissipar.

Pode-se dizer que o capítulo atual da sua vida começou em meados de 2006. Na época seu filho Vinícius, então com três anos, começou a apresentar sinais de que era intolerante a diversas substâncias, como corantes e conservantes. A descoberta representou uma mudança completa na alimentação da família, que passou a produzir a própria alimentação. Em 2008, Edson Nunes, marido de Cláudia, veio para o Paraná para trabalhar e trouxe a família consigo. Em solo paranaense, Edson e Cláudia adquiriram uma pequena propriedade em Quatro Barras, onde começaram a plantar legumes e frutas.

O contato com os orgânicos surgiu da preocupação com alimentos de qualidade que fossem, acima de tudo, saudáveis. No começo Cláudia frequentava feiras de orgânicos, mas logo fez contatos com agricultores que moravam perto de si e, de forma tímida, começou a participar como visitante do grupo da Rede Ecovida. Ali, percebeu que a prática agroecológica representa um zelo consigo, com os outros seres vivos, e com a terra. Toda a sua trajetória culminou em aprendizados que vão desde o modo como ela vê os orgânicos até a ressignificação da tão almejada qualidade vida. Além do alimento limpo colocado na mesa, os orgânicos passaram a representar aquilo que você “coloca para dentro: na sua casa, no seu corpo e na sua consciência”. Essa é a qualidade de vida que Cláudia passou a adquirir e que hoje, através dos alimentos que produz e comercializa, tem o privilégio de reverberar para as outras pessoas.

O primeiro produto que Cláudia vendeu foi pão de queijo. Os amigos chegavam em sua casa, elogiavam, compravam e divulgavam seu trabalho. Seu negócio cresceu como um gráfico matemático, em que a aprovação dos consumidores aproximava seu sonho da realidade. Com a comercialização dos seus alimentos surgiu a necessidade de se adequar a vigilância. Em dezembro de 2017 ela certificou sua agroindústria e, embora não soubesse as dimensões que sua empresa chegaria, hoje ela tem em sua linha de produção quase 20 produtos, com destaque para o tempero Toona Sinenses, uma PANC - planta alimentícia não convencional - que pode substituir o alho e a cebola. Quanto à Festa da Semente, este ano ela estará servindo dois sabores de sucos. As receitas foram criadas e testadas diversas vezes nos últimos anos, mililitro por mililitro, até chegar no produto final. Nas combinações, usa abacaxi, morango, limão rosa, capim limão e açafrão da terra.

Cláudia é grata, de certo modo, às dificuldades que a intolerância alimentar de seu filho lhe apresentou. Foram elas que a levaram até a cozinha, uma das suas grandes satisfações. Por ser um negócio familiar, agradece o apoio da mãe, do filho e do marido. Também gratifica à Deus por cercá-la pessoas que vivem seus sonhos consigo. Gostaria que as pessoas pudessem visualizar, através dos produtos que comercializa, aquilo que elas podem fazer pela sua saúde. Espera, também, um maior reconhecimento do consumidor diante do trabalho de cada família agricultora que vive com alimentação. Acredita que juntos é possível ir bem mais longe, seja em voos altos como a erradicação da fome, ou na consciência individual do quão importante é trabalhar a terra de maneira sustentável e ecológica para a manutenção da vida humana. “O importante é nunca desanimar”, disse ela pelo WhatsApp e, imagino eu, usando turbante na cabeça e vestindo roupas bem coloridas.

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