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20/10/2019

Experiências fora de classe: educação ambiental como tradutora de realidades

Por Thaiany Osório 


Falar de educação no Brasil é, além de reconhecer as dificuldades e desafios que o país enfrenta do ensino básico ao superior, encontrar formas de aprimorar esse ensino, tornando-o mais eficiente. Nesse aspecto, uma pesquisa publicada no início deste ano no jornal Frontiers in Psychology pode jogar uma luz sobre o assunto. Os pesquisadores acompanharam, por 10 semanas, crianças de 9 e 10 anos de uma escola norte-americana. O estudo revelou que os alunos ficaram significativamente mais atentos e comprometidos com as atividades escolares após uma atividade ao ar livre. 

Thaís Alencar Goulart, professora regente da Escola Projeto 21, percebe diferenças animadoras no aprendizado de crianças que aprendem ao ar livre. Partindo de uma análise lógica, ela explica que em sala de aula o aluno faz uso, geralmente, de dois sentidos: visão e audição. No meio da natureza, no entanto, todos os cinco sentidos são usados. “Em sala de aula o aprendizado é mais introspectivo – explica ela. – Mas lá fora a gente pode sentir, tocar, cheirar… podemos ler o mundo através do corpo”

Uma forma de potencializar essas experiências é repensar os espaços físicos das escolas, que raramente são verdes. Thaís cita de exemplo as árvores que são derrubadas para a construção de canchas, ou a colocação de grama sintética para as atividades físicas. “E, quando a escola tem um jardim, há uma placa dizendo ‘proibido pisar na grama’”. Para a professora, essa realidade acaba por criminalizar a criança que brinca na natureza. “O que é uma pena, porque a grama também é um local de aprendizado”, lamenta. 

Para garantir esse aprendizado mais completo, as escolas fazem uso de recursos pedagógicos externos, como visitas em parques, propriedades rurais, museus e instituições públicas. O objetivo é aproximar os alunos da natureza, apresentando uma visão holística dos fenômenos químicos e físicos, tornando o processo de aprendizado mais autônomo. “Falamos muito da teoria, mas o método científico exige uma comprovação das teorias na prática.”, explica a professora. Por isso, pensando em experiências fora de classe, separamos dois exemplos – um privado e outro público – de locais abertos para visitação que garantem aos alunos contato com outras vivências e realidades. 

Sítio Engenho verde: turismo ecológico aproximando o urbano do rural 


Rosani Alba é formada em letras e hoje alia duas paixões na sua vida: cozinhar e educar. Ela e seu marido, Amarildo Alba, compraram uma chácara em Colombo(PR) no início dos anos 2000, com o objetivo de plantar sem o uso de agrotóxicos. A ideia era fugir do óbvio das hortaliças e focar em frutas vermelhas. Logo depois que compraram a propriedade entraram no turismo cultural da cidade, e hoje estão integrados ao Circuito Italiano de Turismo Rural da região. 

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 (Foto: Rosani Alba/Arquivo Pessoal)

Rosani e Amarildo começaram plantando 500 pés de morango e hoje plantam em média seis mil pés. As escolas, em especial as particulares da região, começaram a visitar o sítio em meados de 2005. Naqueles primeiros anos, Rosani abria uma tenda e servia o lanche, que ela mesmo preparava, no gramado. Com o tempo, percebeu que era a hora de expandir. Construiu um espaço amplo para receber grupos maiores e formalizou sua agroindústria.


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Como o casal chama, o "Restaurante" possibilitou receber grupos maiores de visitantes. (Foto: Rosani Alba/Arquivo Pessoal)

Nos dias de visita, Rosani leva as crianças por um tour completo no sítio: os alunos aprendem sobre o tratamento do esgoto com a captação de água da chuva, observam as abelhas nativas sem ferrão e aprendem sobre compostagem. Também vão até o galinheiro, alimentam as galinhas, e recolhem os ovos. Em época de morangos, as crianças vão até a horta e degustam da fruta que colheram. “Quando estávamos com ovelhas recém nascidas, elas até deram mamadeira para as ovelhinhas”, relembra Rosani. 

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 (Foto: Rosani Alba/Arquivo Pessoal)

Experiências como essas, que permitem às crianças um contato direto com agricultores familiares, são muito importantes. “A gente mora na cidade e não observa os fenômenos da natureza. Tem criança que acha que o leite vem da caixinha e que o morango é do mercado”, relembra a professora Thaís. Nesse aspecto, Rosani se emociona com os elogios sinceros que ouve das crianças, principalmente no momento do café, onde elas degustam os alimentos produzidos na fazenda, como sucos, bolos, pães e geleias. “Gosto de atender bem, quero que elas se sintam confortáveis e acolhidas. Por isso é tão bom ouvir que elas falam ‘Tia, esse bolo é tão gostoso, o melhor bolo de chocolate que eu já comi’”, conta ela, rindo. 

Centros de Educação: recursos hídricos e sustentabilidade


A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) possui diversos espaços educacionais, como as estações de tratamento de água de esgoto, o museu de saneamento e o memorial do Rio Iguaçu. Também possui dois Centros de Educação ambiental: os mananciais da Serra (CEAM) e a da represa do Iraí (CESAI). O mais antigo, construído em 1997, é o Centro dos Mananciais da Serra, localizado estrategicamente próximo aos mananciais que antigamente eram usados para o abastecimento público de Curitiba. O sistema foi inaugurado em 1908 e levava a água dos mananciais por gravidade, percorrendo cerca de 38 quilômetros até chegar na capital. 

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Antigo sistema de água, instalado em 1908. (Foto: Sanepar.) 

As visitas nos Centros de Educação são abertas ao público e lá são promovidas discussões sobre recursos hídricos, sustentabilidade, paisagens e conservação de floresta. No caso do CEAM, também é possível fazer trilhas pela floresta, visto que o local fica próximo às margens da represa de Piraquara. “Falamos de tudo que pode afetar de alguma forma os recursos hídricos, desde horta orgânica, compostagem doméstica até separação correta de lixo.”, explica a bióloga Ana Cristina do Rego Barros, especializada em conservação da natureza e educação ambiental da Sanepar. 

Apesar do carro chefe dos Centros ser a visita de escolas, Ana explica que os centros de educação também recebem grupos de universidades, empresas privadas e públicas. No caso dos alunos menores, ela explica que é através da educação ambiental e do seu poder de sensibilização que as crianças entendem conceitos que, muitas vezes, são difíceis de serem captados por adultos. “Hoje se discute muito sobre mudanças climáticas e as crianças percebem que tem algo errado quando você tem 10 graus de máxima e cinco dias depois tem 30”. Para a bióloga, é assim que a educação ambiental se transforma em um tradutor da realidade “Depois do desastre em Mariana, já tive crianças perguntando sobre as barragens da Sanepar.”, relembra ela, reforçando a atenção das crianças em temas ambientais. 

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Centros de Educação ambiental Mananciais da Serra (CEAM). (Foto: Sanepar.) 

A educação é uma via de mão dupla e, por isso, a bióloga observa lições que as crianças ensinam à empresa. Uma delas é a espontaneidade e a coerência. “Elas não tem filtros e são muito coerentes nos discursos. Isso nos faz refletir a todo momento sobre a nossa postura, porque elas percebem nossos erros muito fácil”, explica Ana, que percebe que os alunos estão cada vez mais conscientes, aflitos e preocupados com questões ambientais. 

Como agendar visitas


O CPRA possui uma parceira com a Sanepar no Centro de Educação Ambiental da Represa do Iraí. Essa parceria possibilita integrar o tema da água e dos recursos hídricos nas visitas que o CPRA recebe. Além de conhecer a represa, os visitantes também podem fazer o tour pelas áreas internas do CPRA, como as estufas, a leiteria, a bambucilga, o galinheiro, o relógio de plantas medicinais e o meliponaro. Aberto ao público das 8h às 17h, você pode estar agendando sua visita (de segunda a sexta) pelo telefone: 41 3544-8100.

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Represa do Iraí. (Foto: Henrique Kugler.) 

Para visitar o Engenho Verde, as escolas devem agendar as vistas para permanência no sítio por meio período, pela manhã ou à tarde. O agendamento é feito através dos telefones (41) 3656-3888 ou (41) 99900-4888, ou pelo endereço de email: turismorural@engenhoverde.com.br. Para outras informações, acesse o site ou a página do Sítio no Facebook.  

Já os Centros de Educação da Sanepar recebem os pedidos por agendamento através do email visitas@sanepar.com.br. 

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