CPRA participa do III Seminário Brasil-França de Agroecologia

Data 01/12/2016 | Assunto: Notícias

Acompanhe o que foi discutido durante o evento, que foi mediado pelo diretor adjunto do CPRA e teve a presença das pesquisadoras francesas Danièle Magda e Claire Lamine
Nos dias 24 e 25 de novembro, Maringá (PR) sediou o III Seminário Brasil-França de Agroecologia, que aconteceu em paralelo ao II Congresso Paranaense de Agroecologia e ao II Paraná Agroecológico. O Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) foi uma das organizações responsáveis pelo encontro, em parceria com a Rede Paranaense de Pesquisa em Agroecologia (REPAGRO), o Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) e outras instituições.

"A interação entre Brasil e França é muito relevante para podermos reunir experiências, a partir de duas trajetórias diferentes, que podem nos auxiliar a fortalecer a agroecologia nesses dois países“, afirma o agrônomo Márcio Miranda, diretor-adjunto do CPRA.

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Um dos nomes presentes no seminário foi Danièle Magda, ecóloga do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INRA) da França. "Na sociedade francesa, discute-se muito o impacto da agricultura sobre a biodiversidade", contextualiza a pesquisadora. Ela diz que, por muitos anos, os franceses focaram a pesquisa agronômica em uma visão excessivamente positivista e produtivista das ciências agrárias. Mas esse modelo de pensamento chegou à exaustão. Hoje, o próprio INRA – uma instituição pública, equivalente ao que a Embrapa representa para o Brasil – é o órgão que conduz e lidera as ações em agroecologia no país. 

Magda destaca que, no cenário francês, a agroecologia se consolidou e se legitimou por meio da pesquisa científica. É como se a agroecologia tivesse atingido o status de uma 'nova ciência'. E, na França, essa 'nova ciência' fundamenta-se em três principais linhas de ação: uso da biodiversidade; conhecimento da paisagem natural; e entendimento dos fluxos geoquímicos. O INRA desenvolve, por exemplo, muitos estudos em nível microbiológico acerca das interações planta-planta e planta-microorganismos.

Curiosidade: o INRA também capitaneou uma iniciativa pioneira na internet: a criação da Universidade Virtual da Agroecologia (UVAE). A proposta é um estudo integrado das ciências agronômicas, biológicas e sociais. Segundo o INRA, essa é a visão que deve pautar o desenvolvimento do setor agropecuário ao longo das próximas décadas.

É verdade que a inércia de sistemas produtivos consolidados há tantas décadas coloca muitos desafios diante de qualquer mudança de paradigma. "Mas hoje a agroecologia começa a ocupar o centro da comunidade científica francesa", comenta Magda. "E aprendemos que a agricultura deve ser vista como uma atividade de dupla performance: produtiva e ambiental." É claro que dentro do próprio INRA – e na comunidade científica francesa de modo geral - coexistem diferentes visões acerca dos papéis da agroecologia.

Também esteve presente no seminário a socióloga Claire Lamine, que atua no departamento de ecodesenvolvimento do INRA. Ela comentou algumas das diferenças que percebe entre as práticas agroecológicas nos dois países. "Tenho a impressão de que, no Brasil, a agroecologia tem sido desenvolvida com mais ênfase no contexto da agricultura familiar, enquanto na França ela é desenvolvida principalmente no âmbito político-científico", analisa a socióloga do INRA.

Seja como for, Lamine acredita que qualquer sistema agroalimentar deve ser construído com base na harmonia entre produtor; agroindústria; mercado; extensão rural; pesquisa; políticas públicas; e, finalmente, consumidores e sociedade civil. "Estamos falando de um futuro compartilhado, e, portanto, de uma responsabilidade compartilhada."

Para a agrônoma Irene Maria Cardoso, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), é importante olharmos para as experiências internacionais – mas sem esquecer de valorizar também os casos bem sucedidos de nossas próprias iniciativas. Cardoso, que também é presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), considera as caravanas agroecológicas, realizadas em todo o país, algo inspirador.

Aliás, uma dessas caravanas, na Zona da Mata Mieneira, rendeu a publicação de um artigo científico em uma revista acadêmica internacional de alto impacto: a Applied Soil Ecology. Trata-se de um trabalho sobre vermicompostagem, liderado pela agrônoma Maria Eunice Paula de Souza, da UFV. E como produzir trabalhos de relevância científica no âmbito da agroecologia? Para Cardoso, simplicidade e clareza são duas características imprescindíveis.

“Temos muitas informações, muitos dados. Mas ainda precisamos sistematizar nossas experiências de uma maneira mais sólida”, reflete Cardoso. Ela acredita que essa sistematização deve apontar valiosas lições coletivas para o desenvolvimento da agroecologia em nosso país. Muitos afirmam que a agroecologia é uma área do conhecimento em que o científico e o tradicional precisam caminhar lado a lado. Cardoso concorda. E, parafraseando Paulo Freire, ela lembra que nem a ciência nem a educação podem ignorar os saberes tradicionais.


Henrique Kugler



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